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04/17

O império da pós-verdade.

FATOS ALTERNATIVOS O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Fã do Twitter, ele é emérito propagador de boatos (Foto: Chip Somodevilla/Getty Images, Olivier Douliery-Pool/Getty Images)

Em um domingo de dezembro passado, Edgar Maddison Welch, de 28 anos, invadiu uma popular pizzaria de Washington, a capital dos Estados Unidos, armado com um fuzil AR-15. Welch, morador da Carolina do Norte, ameaçou um funcionário, que conseguiu fugir e chamar a polícia. Ao ser preso, Welch afirmou que fora até a capital americana para investigar “por conta própria” o esquema de tráfico sexual de crianças, que seria comandado pela democrata Hillary Clinton, a partir do restaurante.

A história tratava-se de uma das centenas de notícias falsas e teorias da conspiração que circularam durante a campanha presidencial americana de 2016. A invenção sobre a pizzaria Comet Ping Pong fora publicada em outubro e reproduzida sem critério pela rede pró-Donald Trump na internet, cujo líder supremo era o site Breitbart News. O incidente, que terminou sem feridos e com a prisão de Welch, se tornou um dos exemplos mais ilustrativos da dimensão que o fenômeno das notícias falsas tomou nas campanhas políticas. O efeito foi tal que levou o dicionário Oxford a decretar a “pós-verdade” – a ideia de que fatos objetivos influenciam muito menos a opinião pública do que a emoção e crenças pessoais – como palavra do ano de 2016.

O caso da pizzaria Comet Ping Pong é um episódio extremo, mas não foi isolado. Em outubro, uma eleitora do Iowa foi detida ao tentar registrar seu voto duas vezes, estimulada pelas acusações de fraude eleitoral propagadas por Trump e pelos veículos que lhe apoiavam.
No Reino Unido, os britânicos que votaram pelo Brexit, a saída do país da União Europeia, citavam repetidamente entre suas razões para optar pelo sim no referendo a ideia de que o país não controla suas fronteiras. São manifestações ancoradas ou em teorias conspiratórias sem base factual nenhuma – caso da fraude eleitoral nos Estados Unidos –, ou em análises bastante distorcidas – caso das fronteiras do Reino Unido.

Acreditar em informações que não  tenham base na realidade, mas que corroboram uma visão de mundo particular, é um traço da natureza humana amplamente documentado. São inúmeros os estudos clássicos na área de psicologia cognitiva, que estuda os processos mentais por trás do comportamento humano,  que chegaram a essa conclusão, em tempos muito anteriores à internet ou ao Facebook. Tais pesquisas mostram que o poder da crença – em uma ideia, religião, afinidade política e afins – tende a suplantar a argumentação racional baseada em fatos. Por esse motivo, quando alguém é confrontado por informações que contrariem sua visão de mundo, as chances de que aceitará o novo dado como um fato, mudará sua opinião ou questionará o próprio sistema de crenças são um tanto baixas. É o que os psicólogos cognitivos chamam de “viés de confirmação”: a tendência que nós temos de aceitar as informações que dão suporte a nossas crenças e de rejeitar aquelas que as contradizem.

Se a maneira como processamos as informações que nos chegam continua a mesma, o que estaria por trás da explosão das notícias falsas? De acordo com os estudos mais recentes sobre o tema, a  indústria das fake news foi turbinada pela combinação de três fatores, que criaram um terreno fértil para o império da pós-verdade. O primeiro é o ambiente de alta polarização política, que não favorece nem o debate racional nem o apreço pelo consenso. O segundo é a descentralização da informação, por causa da ascensão de meios de comunicação alternativos e independentes, propiciada pela internet. Parte dos novos canais tem uma agenda política, e seus compromissos propagandísticos e ideológicos suplantam qualquer compromisso com informação factual. O terceiro é o ceticismo generalizado entre as pes­soas quanto às instituições políticas e democráticas – sendo os principais alvos os governos, os partidos e os veículos de mídia tradicional.

“As mentiras sempre existiram. Mas, na era da comunicação em massa, as instituições tradicionais de conhecimento se quebraram e agora há uma grande quantidade de pessoas que não acreditam no que os cientistas falam sobre o aquecimento global, por exemplo”, diz Jayson Harsin, professor da Universidade Americana de Paris. “Nessas condições, é possível fazer afirmações que são parcialmente verdadeiras, majoritariamente falsas ou redondamente falsas. É muito confuso. Há tantas afirmações contraditórias e deliberadamente ambíguas que fica
muito difícil para os cidadãos dar sentido a isso.”

Por causa desse ambiente caótico, é difícil encontrar soluções para lidar com a disseminação da pós-verdade. Na esteira do Brexit e da eleição de Trump, as empresas de tecnologia e as redes sociais foram as primeiras a ser acusadas – com boa razão – de leniência com a propagação das notícias falsas.

Um levantamento feito em novembro pelo site BuzzFeed mostrou que, entre as notícias mais compartilhadas no Facebook nos dias que antecederam as eleições presidenciais americanas, as notícias falsas superaram as reais em leitura (leia mais no quadro abaixo). Os algoritmos que regem a distribuição de conteúdo nas linhas do tempo dos usuários do Facebook favorecem o aparecimento de links que atraem mais cliques e são mais compartilhados. Quando se trata de conteúdo de natureza ultrapartidária ou duvidosa, isso cria um ciclo tóxico de disseminação de desinformação.

Colocado na defensiva, o Facebook prometeu enfrentar a propagação das notícias falsas. Tomou iniciativas como o cancelamento de 30 mil contas falsas na França, parte do esforço contra a  tempestade provocada pela  indústria das fake news na campanha eleitoral do país. Embora a iniciativa seja louvável, os desafios impostos pela era da pós-verdade exigem soluções bem mais complexas. Nos Estados Unidos, um estudo feito em parceria pelos centros de pesquisa de mídia da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o  MIT, mostra que as notícias completamente falsas não foram as que tiveram maior influência na eleição de Trump no ano passado.

O impacto maior foi causado por artigos com alguma base na realidade, mas distorcidos pelos veículos ultrapartidários. Essas narrativas, por sua vez, ganharam força por ter sido replicadas pelo ecossistema de sites pró-Trump. Isso criou, entre os consumidores desse conteúdo, a ilusão de verdade. “Não gosto do termo fake news porque simplifica demais a situação. O que ganhou a eleição não foram teorias da conspiração, mas artigos que incluíam alguns aspectos de verdade, mas que eram propaganda. Eram geralmente conectados a fatos reais, como os e-mails de Hillary vazados pelo WikiLeaks. São o que chamo de falácias familiares, basicamente um conjunto de narrativas majoritariamente ficcionais, repetidas por um circuito de veículos de mídia”, diz Ethan Zuckerman, professor do MIT e um dos autores da pesquisa. “O que ocorre é que, se você é leitor de muitos desses sites, essa narrativa começa a se tornar verdade, porque é reforçada de todos os lados.”

Ao mesmo tempo, esses veículos alternativos atacaram – e seguem atacando – constantemente a imprensa tradicional, desqualificada como mentirosa e parte do “sistema” que combatem. Isso ajuda a alimentar o sentimento de desconfiança generalizado em relação às fontes de informação tradicionais. Para Zuckerman, a questão foi agravada porque o jornalismo profissional não conseguiu dar conta do desafio de fazer frente a essas narrativas e, muitas vezes, acabou pautado por elas. “A simples checagem de fatos não é suficiente. É preciso trabalhar para desmascarar os interesses por trás desses sites”, diz o professor do MIT.

Ainda de acordo com a pesquisa de Harvard e do MIT, em um volume significativamente maior se comparado ao dos apoiadores de Hillary Clinton, os eleitores de Trump se mostraram bem mais propensos a consumir e a compartilhar notícias de sites ultrapartidários e a dar pouca atenção a fontes mais fidedignas de informação. O estudo sugere que isso não tem necessariamente a ver com o algoritmo das redes sociais e levanta duas hipóteses. A primeira seria uma maior capacidade de articulação on-line da campanha de Trump. A segunda é a escolha individual dos eleitores de Trump de só consumir o que corrobora a própria opinião – um comportamento favorecido pelo fato de que as redes sociais funcionam como “câmaras de eco”, que apenas replicam e reforçam nossas próprias opiniões e crenças.

Outra pesquisa sobre a eleição presidencial americana, feita pela Universidade Stanford e pela Universidade de Nova York, publicada em março, faz coro a essas descobertas. Ao monitorarem 115 notícias falsas pró-Trump e 41 pró-Hillary, os economistas Hunt Allcott e Matthew Gentzkow aferiram que os posts pró-Trump foram compartilhados 30 milhões de vezes – os pró-­Hillary 8 milhões. “Quanto mais o eleitor está numa bolha virtual, onde só segue perfis no Facebook e no Twitter de pessoas com quem ele concorda, mais propenso está em compartilhar as notícias, falsas ou verdadeiras, que confirmem o que ele já achava antes. Se as notícias são verdadeiras ou não, não importa”, afirmam os autores do estudo.

Para tentar furar essa bolha de desinformação, as democracias modernas e suas instituições precisam encontrar maneiras de recuperar sua credibilidade. No mundo ocidental, há uma crise de confiança generalizada das populações em relação aos governos, aos partidos políticos e aos veículos tradicionais de imprensa. Em seu levantamento anual sobre a credibilidade das instituições no mundo, a empresa de consultoria de comunicação Edelman identificou que, em 23 dos 28 países pesquisados, a maioria da população não confia em seus governos, na imprensa, nas empresas e nas ONGs. A confiança na imprensa tradicional caiu para seu índice mais baixo em 17 países – países como Austrália, Colômbia e Canadá tiveram quedas nesse índice de 10% em um ano (leia mais no mapa abaixo).

Esses números refletem o sentimento de crise de identidade e valores, ligado às mudanças tecnológicas, econômicas e sociais pelas quais o mundo passou nas últimas décadas. Como mostra a ciência da psicologia, o ser humano, por sua própria natureza, é inclinado a reagir mais com base na emoção do que na razão. Essa tendência associada à crescente polarização política das sociedades contemporâneas tornou mais complicado o exercício do debate público e da construção do consenso nos fóruns políticos. É um problema sem soluções fáceis – e que não será resolvido pelo simples ajuste de algoritmos nas redes sociais ou pelo combate a hackers adolescentes da Macedônia que propagam notícias falsas.

  • Uma crise de credibilidade (Foto: Época )