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03/17

O escândalo da carne dos maiores frigoríficos brasileiros.

De carne estragada a uso de produtos cancerígenos em doses altas, passando por reembalagem de produtos vencidos, carne contaminada por bactérias, misturada com papelão e venda de carne imprópria para consumo humano. A lista de irregularidades encontradas nas denúncias da operação “Carne Fraca”, da Polícia Federal”, é de assustar.

Carne estragada era usada para produzir salsichas e linguiças e promovia-se “maquiagem” de carnes estragadas com ácido ascórbico, substância usada para disfarçar a qualidade do produto e que em altas doses pode provocar câncer. Outra fraude encontrada foi a produção de derivados com uma quantidade de carne muito menor que a necessária, o que exigia a complementação com outros itens. Foram encontradas também carnes sem rotulagem e sem refrigeração. A adulteração chegava até à merenda escolar. Em um dos casos, foi constatada a venda de produtos sem proteínas de carne, apenas de soja, para a merenda de escolas do Paraná.

Em alguns casos, como do frigorífico Peccin, a operação da PF denuncia “armazenamento em temperaturas absolutamente inadequadas, aproveitamento de partes do corpo de animais proibidas pela legislação, utilização de produtos químicos cancerígenos, produção de derivados com o uso de carnes contaminadas por bactérias e,até, putrefatas”. Há diálogos que mostram uso de carne de cabeça de porco para a produção de linguiças.

Os diferentes casos de irregularidades são citados na decisão da 14ª Vara Federal de Curitiba, que esclarece, no entanto, que nem todos os frigoríficos investigados cometem todas as fraudes listadas.

A perícia inicial da investigação, explicou o delegado, recolheu material em supermercado que recebia produtos das empresas investigadas. Um deles era um mercado Walmart em Curitiba, segundo Grillo. O delegado afirmou que eram vendidos alimentos com alterações, carne fora do padrão com uma série de alterações específicas e químicas na carne.
“Usavam ácidos e outros elementos químicos proibidos por lei para maquiar o aspecto físico do alimento porque, se usados do jeito que usam, ele ficava com aspecto ruim, mau cheiro”, disse Grillo.

De acordo com a autoridade, também eram aplicados determinados produtos cancerígenos em alguns casos para poder maquiar as características físicas do produto estragado. Outras estratégias eram usadas que visavam reduzir o custo de produção, como a injeção de água na carne para aumentar o peso e a troca de proteína por fécula de mandioca ou proteína da soja, mais baratas.

CARNE DE CABEÇA DE PORCO

Nas conversas gravadas durante as investigações, Idair e Nair Piccin, marido e mulher e sócios no frigorífico, falam sobre o uso de carne de cabeça de porco na produção de embutidos, ingrediente que é proibido. No diálogo, Idair ordena que sejam comprados 2.000 quilos do produto para a fabricação de linguiças.

O diálogo:

Idair – Você ligou?

Nair – Eu, sim eu liguei. Sabe aquele de cima lá, de Xanxerê?

Idair – É.

Nair – Ele quer te mandar 2000 quilos de carne de cabeça. Conhece carne de cabeça?

Idair – É de cabeça de porco, sei o que que é. E daí?

Nair – Ele vendia a 5, mas daí ele deixa a 4,80 para você conhecer, para fechar carga.

Idair – Tá bom, mas vamos usar no que?

Nair – Não sei.

Idair – Aí que vem a pergunta né? Vamo usar na calabresa, mas aí, é massa fina é? A calabresa já está saturada de massa fina, é pura massa fina.

Nair – Tá.

Idair – Vamos botar no que?

Nair – Não vamos pegar então?

Idair – Ah, manda vir 2000 quilos e botamos na linguiça ali, frescal, moída fina.

Nair – Na linguiça?

Idair – Mas é proibido usar carne de cabeça na linguiça…

Nair – Tá, seria só 2000 quilos para fechar a carga. Depois da outra vez dá para pegar um pouco de toucinho, mas por enquanto ainda tem toucinho (ininteligível).

Idair – O toucinho, primeira coisa, tem que ver que tipo de toucinho que ele tem.

Nair – Sim.

Idair – É, manda ele botar, vai descarregar aonde?

Nair – 100 quilos de toucinho para ver que tipo de toucinho é o dele.

Idair – Vai descarregar aonde isso?

Nair – Em Jaraguá.

Idair – Manda botar.

(…)

Nair – E dessa vez pego os 2000 quilos de cabeça então?

Idair – É, pega , nós vamos fazer o que? Só que na verdade usar no que? Vai ter que enfiar um pouco em linguiça ali.

Nair – Em Jaraguá tem 1000 quilos de sangria, essa serve para que?

Idair – Para calabresa.

Nair – Só para calabresa? tá, tá bom, tá.

Idair – Tchau

Fonte: O Globo